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Professor, Músico, Audiófilo, Cientista Político, Jornalista, Escritor de 1968.

domingo, 29 de agosto de 2010

Frank Zappa, “nunca pirei tanto num cara”.


Ouvi Zappa pela primeira vez na TV. Nos poucos programas com videoclips de Rock do início dos anos 80 repetia aquele You Are What You Is em edição após edição. Aparecia um sósia do Ronal Reagan passando gomalina no cabelo e um homem com cabeça de alface sendo levado por uma multidão. Muito Bizarro. Ficavam caindo uns raios e uma fauna ensandecida do Tio Sam digitava sem rumo, enquanto o mestre de cerimônias e seu arquifiel escudeiro Ray White, em um estilo alternado, iam destilando as idéias. Zappa cantava a letra, que fala da estupidez do povo americano, enquanto Ray fazia aquela série de comentários cínicos e sarcásticos sobre o que se passa.


Uns tempos depois, um amigo pessoal, com quem a vida toda ouvi bastante música, me apareceu com o tal disco do cachorrinho, que ele disse ser muito maluco. Them Or Us me impressionou pela variedade. Tinha quase todo o tipo de música ali, e eu nunca tinha ouvido nada parecido. Tinha desde música estúpida e comercial, temas de Rock Progressivo, Hard Rock, longos solos de guitarra, experimentalismos, uma suite de balé, e algumas canções muito esquisitas. Em Frog With Dirty Little Lips, um contrabaixo fazendo slap contrastava com a voz grave de Zappa narrando a epopéia dos sapinhos, que cantavam felizes a alegria de ter labiozinhos sujos. Tinha uns barulhinhos agudos que davam a impressão de serem moscas e mosquitos sendo devorados. Que psicodelia!


Me impressionou muito essa audição, pela qualidade sonora do álbum, pela versão irada de Whipping Post do Allman Brothers, e uma canção em 5/4 com sons invertidos e um solo maluco … “Cara, eu nunca ouvi um solo assim, quem é esse guitarrista?”. O nome era Steve Vai. “Ih peraí, que tem uma música com o nome dele, Stevie's Spanking. O quê, o cara quer ser espancado?” Pois é, que outras surpresas me aguardavam nesse álbum? Tem a história do divórcio do caminhoneiro que tem que entregar o feijão e chora ouvindo música country (Truck Driver Divorce), tem o hino mundial dos dentistas (baby, Take Your Teeth Out), tem uma canção estilo Frank Sinatra que mostra o homem que pode destruir o mundo com remorso na hora de apertar o botão (The Planet of My Dreams) e uma espécie de comercial cínico mostrando os podres recursos que a TV usa pra controlar sua mente, prender sua atenção e fazê-lo comprar tudo o que é anunciado (Be In My Vídeo). Sensacional a participação de Johnny Guitar Watson em In France.


Aí muito tempo se passou. Um disco do Zappa foi lançado no Brasil logo depois do Demorãs, se não me engano o título era longo, Frank Zappa Meets The Mothers Of Prevention, com uma capa preta e letras garrafais em branco. A parte do disco com banda era legal e tudo o mais, mas o lado B do bolachão trazia um som que – mais uma vez – me espantou por eu nunca ter ouvido nada parecido – e olha que essa época – 1986 – eu já tinha ouvido bastante coisa. Me lembrou um pouco o Kraftwerk em uma primeira impressão, mas só em uma primeira mesmo. Era bem mais sofisticado. Ao invés da simplicidade das músicas do quarteto alemão, o compositor se utilizava de síncopas rítmicas, estranhas harmonias e muitos elementos percussívos, que se desdobravam aos borbotões, criando um clima bastante, como diria, curioso, engraçado, rico e irresistível. Fui levado a ouvir esses temas muitas vezes e descobri lendo a ficha técnica que aquilo ali era reproduzido por uma espécie de computador musical, em que bastava programar as notas em uma partitura digital, os sons, ritmo, enfim, tudo, que ele reproduzia. Livre de ensaiar bandas a exaustão, procurar músicos dispostos a se submeter às suas torturas de horas e horas de ensaio e gravação, o compositor se sentiu inspirado e produziu algumas das peças mais originais da história da música, e isso inclui tudo que vai da música pop até o erudito. Usando o Synclavier o gênio anteviu a era da digitalização total, porque aliás, fazer antes dos outros sempre foi sua marca. 


Dois anos adiante, eu tive minha primeira experiência de trabalho com a música, fui ser vendedor de discos em uma loja tipo bric de usados. Eu fui contratado, porque antes de ser balconista, eu era freguês de caderninho da Free Discos Usados. O preço do Lp novo sempre foi abusivo. Na Pop Som e na Discoteca não dáva pra comprar todas as novidades que saiam. Além do mais, tinha muita coisa fora de catálogo. Do Zappa mesmo só dois ou três álbums podiam ser encontrados nas grandes lojas de discos de Porto Alegre, que ficavam entre a Borges de Medeiros e a Galeria Chaves, na Rua da Praia. Já nos usados, se encontravam facilmente raridades.


Eu andava curtindo Beatles e as bandas de Rock do momento no Brasil, havia uma penca delas, quando fui trabalhar ali, no Viaduto Otávio Rocha. Bom, eu achava que eu já entendia bastante de discos e música, mas eu só achava. O Sérgio Sperk, dono da loja e seu assistente Hamilton Martins – o Zip como todos o chamavam – me ensinaram mais sobre música do que qualquer outra pessoa já havia me ensinado. As discografias, as histórias das bandas, Jazz, Blues e MPB, de tudo eu aprendi com eles. Isso em 1987, aí o Zappa voltou. O Zip manjava a discografia inteira (àquela altura já eram mais de 40 álbums), e tinha raridades das quais ele falava pra nós, eu e um curioso Sperk, descrevendo as loucuras e macetes que cercavam as obras.


Coincidentemente, por essa época, lançaram um disco do Zappa no Brasil, o Tinseltown Rebelion, e mais ou menos junto, pouco antes ou depois, uma reedição do Sheik Yerbouty, bolachões duplos em edições joiadas, com todas as letras, e remasterizadas digitalmente (ha há, isso parece até coisa de hoje em dia). Aí, com toda essa informação, eu pirei na do cara e, em alguns meses, eu praticamente decorei todas as letras dos dois álbuns, todos os detalhes, faixa por faixa, os solos de memória, as paradinhas, as melodias … E é por isso tudo que não dá pra escrever só um texto sobre o cara, porque eu ouvi e pirei nele demais.

Esse primeiro posto sobre o Zappa é dedicado ao meu amigo Marcelo Maddy Lee do blog "O Pântano Elétrico" que me incentivou a escrever o que me desse na telha sobre o malucão aí em cima. Valeu Maddyyyy!

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

"Blog de Ouro".

Agradeço ao Fred Benning do Blog http://musica-quemudouomundo.blogspot.com/ que me indicou para esse prêmio. Meu blog tem pouco tempo de vida, é novo, nem tenho muito tempo pra postar, mas faço tudo pela música, com muito amor, também pra agradar caras como ele. Valeu Fred.

Eu também faço isso por caras como estes aí embaixo que eu indico pra esse prêmio. Boa sorte galera!

http://boogiewoody.blogspot.com/
http://collective-collection.blogspot.com/
http://musica-quemudouomundo.blogspot.com/
http://erawilson.blogspot.com/
http://euovo.blogspot.com/
http://lagrimapsicodelica1.blogspot.com/
http://madshoes.wordpress.com/
http://serdanoite.blogspot.com/
http://opantanoeletrico.blogspot.com/
http://gravetos-berlotas.blogspot.com/



Como participar:

Ao aceitar receber o selo, os indicados devem cumprir quatro procedimentos básicos:

1° Colocar a Imagem do Selo No Seu Blog;

2° Indicar o Link do Blog Que o Indicou;

3° Indicar Outros Blogs Para Receberem o Selo;

4° Comentar nos Blogs de Seus Indicados Sobre o Selo  

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Crossed Fingers, belo sonho efêmero


Talvez eu não devesse contar essa história, que foi de intenso sofrimento pra mim, porque quando me apaixonei pelo Blues pela primeira vez e queria ter uma banda, essa banda foi a Crossed Fingers. Na verdade eu queria muito fazer parte da Anos Blues, mas esta já tinha baixista, o Xândi. Aí, quando o Julio saiu da Anos Blues ... acabei formando esse trio com ele e um baterista chamado Diego, cujo sobrenome nem me lembro. Ensaiávamos no quarto da casa desse baterista, fizemos um ou dois shows, gravamos uma música e um clip e ele nos deixou. Depois ficamos muito amigos do Ronaldo. Ensaiáçmos no porão dele, lá no morro da Embratel.
O repertório de Blues era Muddy Waters, Howlin Wolf, Elmore James, Stevie Ray Vaughan, Fleetwood Mac, John Mayall. Tínhamos um de Rock que pegava Deep Purple, Jimi Hendrix, Beatles (e ainda ensaiávamos um terceiro para shows bem comerciais com pop brasileiro).
Mas a formação clássica foi mesmo aquela com o Lorenzo Metz, baterista dos Cabeludos. Com ele tocamos no festival de Blues da Usina do Gasômetro e outros. Eu e o Júlio viajamos pelo interior tocando blues por um breve período. Em um desses eventos coletivos, eu e Lorenzo nos atrasamos ao sairmos, entre a passagem de som e o momento do show. Chegamos e fomos xingados pelo produtor do show. Nossa apresentação se reduziu a uma música. O batera entrou no andamento errado, eu cantei mal, Júlio ficou furioso (com razão) e terminou com tudo.
Tal fato me deixou muito aborrecido, pois além de amigo pessoal eu também achava o Júlio Cascaes um dos melhore guitarristas de blues que eu já ouvira. Ficou a saudade de um sonho bom, mas que foi efêmero.


quinta-feira, 5 de agosto de 2010

King Crimson, o rei na toca do coelho


Esse som me faz coceira no cérebro”, é como eu costumo descrever esse grupo, quando alguém que o desconhece me pergunta algo sobre. “Coceira no cérebro?Ha há há há, como isso é possível?” E eu respondo que é um som que me provoca, me desafia, entorta meu pensamento. Senti isso desde a primeira vez que eu vi na TV lá por 1983 o clip da canção Elephant Talk. Um carequinha meio dentuço, na verdade Adrian Belew, empunhava uma guitarra da qual extraía estranhos sons que pareciam, de fato, elelfantosidades gritadas com fúria e tonalidade. Num cantinho, sentado, uma espécie de Lorde Inglês e preceptor, isto é, Robert Fripp, ficava cavocando uma estranha guitarra com som de teclado, da qual extraía sons agudos e repetitivos, que se prolongavam dupla, triplamente, uns sobre os outros. Atrás deles um altão careca com bigodão, batia com duas mãos num braço solitário, grosso, o Stick, reverberando sons guturalmente graves. Era o Tony Levin. Bill Bruford, o baterista, o único que eu já conhecia do Yes, beiçudo, sincopava o ritmo toda hora, com contras e rolos numa Simmons (bateria digital) que criavam uma sensação de um eletrodoméstico desgovernado. Eu acabara de deparar com o King Crimson.


Não há nada igual a King Crimson, é o que devo afirmar. Acho que não há imitadores, seguidores ou desafiadores. A banda, que atualmente mantém os tempos clássicos apenas o líder Fripp e o parceiro de últimos tempos Belew, se firmou como um dos grupos mais importantes (e esquisitos) da história do Rock e reina solitária no feudo que ela ajudou a criar, desenvolver e no qual tomou um rumo próprio, não trilhado por mais ninguém.  


Começaram tão badalados lá no ano de 1968. mas já diferentes. Ao invés das intensas maratonas rococós-clássicas dos grupos de progressivo, silêncio … e jazz. Improvisações em escalas cromáticas, duelos improváveis entre guitarras e saxofone, poesia intimista e/ou crítica de um membro apenas letrista, Pete Sinfield, e um melotron usado de forma econômica harmonicamente ao mesmo tempo que insistente. Na capa, uma obra prima: expressionismo sideral! Da ira na capa á conciliação no interior, a capa do primeiro álbum marcou época é uma das mais originais e lembradas em pesquisas de melhores frentes de álbuns.



A voz grave e sedutora de um jovem Greg Lake convida o ouvinte a longas viagens pelo interior da mente. Imagens da vida esquizofrênica do homem contemporâneo precedem calmamente a leve sensação de conversar com o vento. Jovens filhas da lua chegam à corte do rei escarlate que é cantada e decantada em uma longa suíte erudita. De cair o queixo e inesquecível. E da vontade de ouvir de novo e de novo, e de tempos em tempos é sempre bom relembrar.
  




Além da famosa trilogia vermelho-azul-amarelo, o Crimso tem grandes álbuns nos 70, 80 e 90. Não podemos jamais esquecer do excentríssimo Línguas de Cotovia em Conserva. Guitarras distorcidas, atonalismo, estranhas combinações dinâmicas de intrumentos que se sucedem em uma sinfonia de climas exóticos, apimentados e idiossincráticos. Nunca se viu um prog tão rico. Em Red, o trio Brufford-Fripp-Wetton esgota todas as possibilidades dos 70, até em temas tipicamente guitarrísticos e meramente instrumentais. E a sequência Discipline-Beat-Three Of a Perfect Pair é uma das obras mais perfeitas da década de 80, do Head Rock, do Fusion e ainda, do Pop Rock.



Não é fácil de ouvir. Um estilo mesmo “coçante” da mente não pode ser algo fácil, pois eis aí uma das fronteiras a sem desbravadas pela ciência, nossa cuca. Não há limites para as sensações que se pode provocar ouvindo a música do King Crimson, para bem e, eventualmente pra o desconforto. Sim, porque antes de produzir algo simplesmente palatável, o que Bob Fripp e sua turma sempre quiseram mesmo foi incomodar.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

YES, cristal, trovão e falastrismos

Quem primeiro me levou às cordilheiras de gelo onde a vida crepita, ao abismo onde muitas surpresas aguardam, às ruas onde as pessoas felizes e perfeitas simplesmente compartilhavam o mundo, a me sentir pequeno diante do cosmo imenso … tudo através da combinação harmoniosíssima dos graves, agudos intensamente vibrantes e mansamente sutis, calmos e impetuosos, que se transformam nisso, para, e se transforma naquilo e volta, opa, já não é mais a mesma coisa … foi o Yes. Voz de cristal, baixo de trovão colegas intensos e falastrões, exibicionismo explícito milimetricamente calculado por Anderson Squire.


É, poderia ter sido apenas mais um encontro casual no Soho em 1968, de dois rapazes com gostos e sentimentos comuns que gostavam de harmonia vocal. Talvez tenha sido um encontro casual mesmo. O caso foi criado entre a dupla: sempre juntos e comandando o rumo do barco, como uma outra pessoa que se forma quando juntos … tipo, casamento. Quem ouvir os primeiros solo de ambos, Fish Out of Water e Olias of Sunhillow, vai notar as semelhanças. Os temas se desenvolvem lentamente, como música erudita, sem pressa. As texturas vão se construindo com muito pé no chão pelo lado de Chris Squire (aquele baixo forte) e parecem flutuar com Jon Anderson, leve como uma pluma. Muitos instrumentos, camas de vocais, muitas, muitas idéias, sempre “positivas” (daí o nome? Pouco provável pois foi dado pelo primeiro guitarrista, Peter Banks).

Algum tempo depois já comandavam o ritmo e a evolução do progressivo que durou até 1975 e 76. Steve Howe sentava a mão na guitarra, a música mais sofisticada conquistava a cabeça dos jovens, fenômeno impulsionado pela expansão do fluxo de consciência do fim dos anos 60. O fim de uma era também. Disco e Punks vão se alastrar abafando o que foi feito no início dos 80. Quem conseguiu resistir, quem se amoldou ás novas tendências. Nos 90 o prog volta com tudo, pra ficar, como gênero definitivo e importante no Rock.


Para mim, tudo começou com Close To the Edge. A longa mudança permanente com a confirmação do início no fim. A Alteridade e o misticismo. Sorridente e forte o The Yes Album traz, com suas exibições de virtuosismo, belos arranjos vocais e muita mistura de Jazz, Blues, Erudito, e, claro, Rock'n Roll! No alerta à Fragilidade da vida, Fragile mostra a banda com um som estável e engordado por Rick Wakeman esmerilhando nos teclados. Esses temas são Imortais! South Side Of The Sky, Heart of The Sunrise, Long Distance Runaround e, claro, a obra-prima, Roundabout. Nunca foi tão perfeita a síntese entre prog e pop. Referência universal esta canção que passou a servir de modelo pra qualquer banda do gênero que quisesse fazer sucesso.


Milhões de imitadores, nem preciso dizer quem, são tantos. Não aparecem grupos mais tão originais assim no mundo de hoje, dentro do que chamamos Rock. Pra onde foi o Rock? Sim tem muita coisa boa ainda, mas será que pela quantidade é possível dizer pra onde vai? O Yes sabia pra onde ia e sabia que fazer música não era simplesmente brincar de fazer letras e compor melodias harmonizando com 3 ou 4 acordes. Não são muitas as canções, alguns não gostam, talvez. O que importa é que elas ficarão. Permanecerão com sua capacidade de transcender o presente nos lançando irremediavelmente em um passado onde já se vislumbrava o futuro: viver em paz com a natureza.


quarta-feira, 28 de julho de 2010

Anos Blues, Chicago em Porto Alegre


Quem me carregou pro meio deles foi o Álvaro Godolphim, grande saxofonista e meu brother, um dos melhores que eu já vi tocar. Iben Ribeiro como ele, gostava de rock desde pequeno, vizinhos na Vila dos Comerciários. Do mesmo povo era o Homero Luz, grande vocalista, Edu Nascimento, percussionista e batera, filho do músico Giba Giba, e Ângelo Metz, natural de Montenegro e aluno de Música da UFRGS. Tinha o Xandi, baixista, que estudava composição também na Federal.


Eu já tinha tocado com o Álvaro em algumas bandinhas quase de garagem, como o Fazendo Suspense, em que tocávamos só som instrumental. Depois levei ele pra Ópera Bufa. Fui um dia bem tarde da noite conhecer o Iben e fiquei batendo um papo até altas horas, curtindo um som setentão. Algum tempo depois eu soube que um povinho desses aí, menos o Ribeiro tinham formado um grupo chamado Ladrões Bolivianos. Chegaram a gravar umas faixas, com o Cláudio Joner, baixista lá de Santa Rosa.
Fui um dia na falecida sede da Terreira da Tribo na José do Patrocínio e escuto alguém tocando Rhythm'n Blues, e bem … chego pra olhar e quem vejo? Eric Clapton em pessoa! Não, melhor, Iben Ribeiro. Cara, o neguinho tocava muito! Com uma guitarra Luffing e um ampli Gianini ele não deixava nada a dever a nenhum outro guitarrista de Blues que eu tivesse ouvido em Poa. Saí curioso pra ver mais uma vez aquele cara que eu já conhecia, e que acho não tinha me reconhecido no dia.


Nessa época, as únicas coisas que eu tinha ouvido do Gênero em Porto foi o Moreirinha e Seus Suspiram Blues (presentes no Rock Garagem 1, histórica coletânea da primeira geração do Rock gaúcho) e, talvez Ecos Do Mississipi? Não lembro se eles já existiam. O Solon nem tinha largado a Prize e o baixo pra tocar guitarra. Acho que isso tudo foi entre 1988 e 89. Em 1990, eu entrei pra Ópera Bufa, voltei a ter atividades musicais, tava parado desde 1986. Meu baixo tava emprestado pro Alexandre Farina (que hoje é jornalista). Ele tava a fim de tocar guitarra e pediu pra eu assumir o contrabaixo. Acabei sabendo que o Iben tinha casado com a Rita Scheid, nova vocalista de sua banda de Blues, que se chamava Anos Blues, e que eles tavam fazendo um som Irado! Ela cantava como a Janis Joplin ou algo parecido. Eles foram assistir um ensaio da Ópera Bufa levados pelo Álvaro e acabaram levando um som, quase fazendo um show especial pra nós. Isso ocorreu na casa do Ronaldo, que trabalhava conosco na época tocando bateria. Tinha o Ênio Medina que tocava uma super gaita de boca e ainda um teclado.
Mais ou menos por esse período, o Godolfa levou eles pra assistir a Ópera Bufa no Porto de Elis. Tava uma corja lá. O show repercutiu bem. A gente tinha gravado umas músicas com o Homero como técnico de som que ficaram legais. Infelizmente, o grupo se desfez 6 meses depois pra ser, mais tarde recriado pelo seu fundador, o guitarrista André Piccinini.


Mais adiante ouvi falar através de uma conhecida que namorou o Ale, a jornalista Paola Oliveira, que o atual namorado dela e guitarrista Júlio Cascaes (que eu já tinha conhecido em uma festa tocando trompete!) tinha entrado na Banda do Iben. Ela me convidou pra assistir um show deles, não sei onde exatamente, acho que era num bar chamado Quarto Mundo que ficava na Ramiro Barcellos. A Rita tinha deixado o vocal assumido pelo Índio e aí era a formação clássica básica, com Iben e Homero dividindo os Vocais, Edu e Xandi na cozinha, o Pato, como era apelidado na época (Júlio) fazendo a segunda guitarra e slide (ele era um show à parte), acrescido pelo Paulo Lata Velha (sax tenor e barítono), casado com a Mirian Ribeiro, atriz e mãe de Iben. Ele dava um toque especial pro quinteto, fazendo linhas de sopro que acabaram se tranformando em base pra introdução de um naipe de sopros futuramente. O octeto clássico completava-se, quando era possível. Devido ao grande número de compromissos, apenas em shows para públicos maiores, completavam o naipe Chico Gomes (trompete) e Marcelo Figueiredo (Sax Tenor). Com esse time aí, eles tocaram por tudo em Porto Alegre, região metropolitana e até no interior, durante 2 ou 3 anos, ficando bem conhecidos. O repertório incluia Albert King, B.B. King, Freddie King, Muddy Waters, Howlin' Wolf, John Mayall, Elmore James, e, eventualmente, alguma composição própria ou rock sessentão como Beatles, Cream ou Stones. É claro, isso foi inspiração pra eu querer o ter coragem de formar bandas com estilo próximo a isso.


Fui e saí do show extasiado! Meu deus, que inveja, eu queria tocar em uma banda assim (por isso montei Os Cabeludos, he he, e depois a Crossed Fingers com o Júlio, quando ele deixou a Anos blues por desentendimentos com Iben). Eu tinha que fazer parte daquela banda, de alguma forma. Acabei, além de camarada e amigo, virando o Fotógrafo. Fiz tudo de graça, por pura camaradagem. Fiquei muito amigo do Homero, com quem, além dos Cabeludos, formaria um duo que durou 5 anos, Los Bucaneros. Acabei indo a muitos outros shows da banda e levando muitos outros amigos e amigas para assistir.
Eu já tava me enfronhando no baile com a Hora H e consegui shows em alguns bares para eles tocarem um blues. Fiz shows com Iben e Júlio juntos comigo e Homero em alguns lugares, na praia, em Esteio, Sapucaia, sei lá, foram tantos shows diferentes e malucos, misturando repertórios. Em um veraneio toda a patota ficou no ap dos Ribeiro em Tramandaí, fazendo um som e veraneando. Foi no famoso verão de 1992 onde iniciaram-se as atividades cabeludas. Eu morei ali quase dois meses, naquele ano.


Nessa época eles acabaram ficando amigos do Nei Lisboa, com quem até gravaram a canção O Bife. Entraram pra aquela série da RBS, Talentos do Sul. Um tempo depois, não me lembro bem porque, o grupo se desfez. Alguns anos depois, por minha amizade com aquele povo, finalmente realizei meu sonho: virei baixista e vocalista da Anos Blues, que tinha um repertório alternativo tocando clássicos do Rock dos anos 60 e 70, aí se chamava Volume Dez. Isso durou até 1998, quando resolvi encerrar minha participação profissional como músico e virei professor.
Ficou a amizade com a maioria dos citados, outros nunca mais vi, com uns poucos me desenterndi. Ficou a saudade de um tempo em que eu andava com uma galera que era a melhor banda de Blues de Porto Alegre. Ficou a saudade de um tempo onde o que era bom, fazia sucesso, tinha espaço e tocava no rádio.


1ª Formação – Iben Ribeiro (Guitarra e vocal), Edu Nascimento (Bateria), Rita Scheid (Vocal), Ênio Medina (Teclado e Harmônica), Bigode (Contrabaixo).

2ª Formação – Iben Ribeiro (Guitarra e Vocal), Homero Luz (Vocal), Julio Cascaes (Guitarra e Slide), Xândi Burnfelt (Contrabaixo), Edu Nascimento (Bateria).

3ª Formação – a mesma que a 2ª mais Paulo Lata Velha (Sax Tenor e Barítono), Chico Gomes (Trompete), Marcelo Figueiredo (Sax Tenor).

4ª Formação – a mesma sem Júlio Cascaes.

Formação final: Iben, Homero e Lawrence David (Baixo e Vocal), e Lorenzo Metz ou Leandro Aragão (Bateria).

Todos os envolvidos, que lerem, por favor deixem comentários corrigindo possíveis informações equivocadas. Conto com a colaboração, obrigado.

domingo, 25 de julho de 2010

Jimi Hendrix, o descobridor da Strat Mágica.

A maneira de combinar as notas, de transformar o suave em pesado, de solar enquanto faz o ritmo, de botar aquele dedão grosso como pestana e deixar os outros fazerem coisas quase impossíveis, as harmonias quase jazzísticas, os riffs certeiros e que ficam martelando na moringa, os climas psicodélicos, a voz quase falada às vezes, a dinâmica da experiência, o virtuosismo até nos bem agudos, o uso descontrolado dos efeitos dos paredões de Marshall saturados e do Cry-baby (wah-wah), é, tudo isso foi ele que inventou, nosso amigo aí acima, O Jimi.

Realmente eu não sei como é que pode alguém duvidar que esse rapaz jamais será superado, e olha que depois dele, vieram outros muitíssimo bons. Não é uma questão de qualidade apenas, mas, principalmente, de novidade e dimensão da guitarra elétrica na música. A partir dali um mundo de possibilidades surgiu. A guitarra sai da posição de tão importante quanto pra uma de mais importante que tudo. Não daria pra aparecer outros que tocassem guitarra pesado e sozinhos, se alguém não tivesse mostrado ao mundo do que uma guitarra era capaz. Aqueles sons, murmúrios, queixumes, súplicas, falas saiam de um único instrumento. “Não, não pode sair tudo de uma só Strat, me belisca que eu tô sonhando, esse cara não é real”, foi o que pensei quando ouvi o álbum Axis, Bold As Love pela primeira vez.


O mais paradoxal é que não foi uma das coisas que me bateram mais, logo que comecei a gostar de Rock. Tive que amadurecer um pouco para começar a curtir de verdade esse maluco. Ouvir a fundo, pra mim, é coisa recente, de pesquisar álbum por álbum, canção por canção, comparar as várias fases, e os parceiros diferentes. Em estúdio é bastante impressionante, mas aí, o cara vira muitos. O que mais me abestalha são suas performances ao vivo. Os sons eloquentes que ele tira até incendiando seu instrumento.



Nos improvisos ele se atrapalha, erra notas, porque sua mente imaginava coisas tão mirabolantes que a mão nem conseguia acompanhar. Sem jamais perder a elegância ele conversa com a plateia, rindo, um pouco tímido, exibido e sem parecer arrogante. Sincero e dedicado. Devoto de loucuras mil, aliás demais, que o acabaram matando, Jimi viveu intensamente cada um de seus momentos de um modo vertiginoso, quebrando barreiras sonoras a cada passo dado. Sem medo de arriscar, se cercou de experientes músicos de estúdio para produzir uma obra chave no continuum do Rock entre sua geração e a seguinte.


Completamente enlouquecido com o próprio espetáculo, depois de espancar a fera, tocá-la com os dentes, nas costas, com os pés, ele joga combustível e põe fogo na Strat e assiste estasiado, sua descoberta se transformar em madeira, metal e plástico carbonizados, enquanto ainda emite uivos, gritos de desespero, e sons nunca antes visitados. Joga pra galera, quem resiste a isso? Um hino e uma mensagem, “Não ao Vietnam”, metalóides que se transformam em bombas, honra que vira tragédia e piléria.

Havia algo de muito esquisito, ele não se enquadrava, não se encaixava nesse mundo, perdido entre a imaginação transbordante e a excessividade lisérgica, flutuou, um dia para longe, sufocado pela própria angustia de mostrar aquilo que nem ele realizava bem o que era. Talvez tão forte intenso como o amor, tão outsider como um cigano, ele foi à terra das mulheres elétricas olhar os primeiros raios do novo dia que surgia.